O preço da memória DDR5 subiu mais 7% em julho e bateu recorde histórico. Em doze meses, a alta acumulada é de 448%. Não é erro de digitação: quase quatro vezes e meia mais caro do que estava em julho do ano passado.
Os dados são do índice de preços do 3DCenter, o levantamento alemão que acompanha o mercado de memória mês a mês, e foram publicados no Brasil pelo Última Ficha. A alta de julho enterra qualquer esperança de que aquelas quedinhas de março e junho fossem o começo da normalização. Não eram.
De US$ 80 pra US$ 439: o pente de RAM virou item de luxo
O número que resume a loucura é esse: um kit básico de 32 GB de DDR5, dessas comuns que qualquer pessoa colocava numa máquina de trabalho sem pensar duas vezes, custava US$ 80 no ano passado. Em junho de 2026 estava em US$ 439.
Conta em voz alta: são US$ 359 a mais no mesmo pente. Multiplicando, o componente ficou 5,5 vezes mais caro. Se o seu salário tivesse subido na mesma proporção, quem ganhava R$ 4 mil estaria ganhando R$ 22 mil. Não é o caso de ninguém que eu conheça.
E o efeito não fica só na memória. Placa de vídeo depende de chip de memória pra funcionar, então GPU encareceu junto. Processador e placa-mãe também estão sendo puxados. Fabricantes começaram a voltar a lançar placas-mãe DDR4, uma tecnologia que já era pra estar aposentada, só pra oferecer uma saída mais barata.
A inteligência artificial comeu a memória do seu computador
A causa é uma só, e ela não está escondida: data center de IA.
Samsung, SK hynix e Micron, que são as três donas do mundo em memória, redirecionaram as linhas de produção pra HBM, a memória de alta banda que alimenta GPU de treinamento de modelo. A margem lá é muito maior. Vender pente pra gamer virou o negócio menos interessante da fábrica.
E o problema é físico, não só comercial. 1 GB de HBM consome até quatro vezes mais silício que 1 GB de DRAM comum. Cada wafer que vai pra HBM tira quatro vezes mais capacidade do mercado de consumo do que parece. Por isso a oferta desabou tão rápido.
Some a isso a volta das vendas de smartphone premium, que também comem DRAM, e a decisão das fundições de não expandir capacidade no curto prazo. Deu no que deu.
A escassez chegou ao ponto de loja no Japão e em Taiwan limitar quantos pentes cada cliente pode levar. Cena que não se via desde a pandemia.
Notebook de US$ 900 virou notebook de US$ 1.200
Quem monta PC sente primeiro, mas quem só compra notebook pronto já está pagando a conta também.
A HP admitiu publicamente que a memória passou a representar 35% do custo total de componentes de um PC novo. Um terço da máquina é RAM. Diante disso, Dell, Lenovo, Acer e ASUS repassaram o aumento: notebooks intermediários que custavam US$ 900 saltaram pra mais de US$ 1.200, segundo o levantamento do Notebookcheck citado pelo Canaltech.
São 33% de aumento no aparelho inteiro por causa de um componente. E veio junto um efeito colateral que ninguém queria de volta: notebooks com 8 GB de RAM voltaram a ser vendidos com força. Aquilo que parecia extinto em 2024 ressuscitou, porque cortar memória é o jeito mais rápido de segurar o preço de etiqueta.
Comprar notebook de 8 GB em 2026 é jogar dinheiro fora. Windows moderno com navegador aberto já engole isso sozinho.
As projeções pro resto do ano são piores. Estimativas de mercado apontam escalada de até 130% nos preços combinados de DRAM e SSD até dezembro, e uma queda de 10,4% nas vendas globais de PCs. Ou seja: mais caro e menos gente comprando.
Ninguém sabe quando isso acaba, e as previsões pioraram
Aqui as fontes divergem, e vale registrar a divergência em vez de fingir consenso.
Analistas mais otimistas falam que o alívio na produção começa no fim de 2027, quando novas fábricas entrarem em operação. Um executivo da AMD já jogou pra 2028, dizendo que preço de DDR5 não cai antes disso.
E aí tem a previsão mais assustadora de todas. Chen Li-bai, presidente da ADATA, afirmou que a cadeia de suprimentos de DRAM pode levar até dez anos pra alcançar estabilização real. Segundo ele, uma análise concreta sobre o equilíbrio entre demanda de NAND Flash e capacidade de produção só vai ser possível depois de 2030.
Dez anos. Se estiver certo, quem tem 21 anos hoje vai passar a década inteira comprando memória cara.
Eu acho a previsão da ADATA exagerada, e vale lembrar que fabricante de memória tem interesse direto em manter clima de escassez. Mas mesmo cortando pela metade, a gente está falando de 2030. Isso muda planejamento de compra de qualquer pessoa.
O que fazer com o seu dinheiro se você precisa de PC agora
Conselho de bolso, porque aqui tem dinheiro de verdade em jogo:
- Não espere cair. Esse é o erro clássico. O índice de julho mostra que a curva voltou a subir. Se você precisa da máquina pra trabalhar, compra agora, porque a chance de estar mais caro em dezembro é maior do que a de estar mais barato.
- Compre a memória que você vai precisar de uma vez. A lógica de “coloco 16 GB agora e adiciono depois” quebrou. Depois vai custar mais.
- Fuja de notebook com 8 GB. Mesmo com desconto. Você vai trocar a máquina em dois anos por sufoco de memória, e aí vai pagar preço de 2028.
- Considere DDR4 se a plataforma permitir. Fabricantes voltaram a lançar placas-mãe DDR4 justamente porque a conta fecha melhor. Pra uso de escritório e estudo, resolve.
- Memória usada dá pra considerar, com cuidado. Com pente novo a esse preço, o mercado de segunda mão virou opção legítima. Só compre com garantia e teste na hora.
- Se puder adiar o upgrade e a máquina atual dá conta, adie o upgrade. Não é o momento de trocar por gosto.
Aqui a alta chega com dólar e imposto em cima
Todos esses números são em dólar, e é aí que a conta piora pra quem compra no Brasil. O consumidor daqui paga a alta internacional, mais a variação cambial, mais imposto de importação, mais margem de varejo. Um pente que subiu 448% lá fora não sobe 448% aqui: sobe isso composto com o resto.
A ADATA XPG, uma das marcas mais vendidas no varejo brasileiro, já abriu o jogo sobre preços no Brasil em entrevista ao Canaltech e foi direta: “não vai melhorar”.
Isso tem efeito prático em quem trabalha com máquina. Empresa que ia renovar parque em 2026 precisa refazer orçamento. Estúdio, produtora e escritório de arquitetura vão sentir no capex. E freelancer que monta o próprio PC acabou de ver o custo de entrada da profissão subir de forma brutal.
As dúvidas que mais aparecem sobre a crise da memória
Se a demanda é tão alta, por que as fábricas simplesmente não produzem mais?
Porque fábrica de semicondutor leva de três a cinco anos pra ficar de pé e custa dezenas de bilhões de dólares. Nenhuma delas quer repetir o ciclo de 2018, quando expandiram no pico e o preço despencou logo depois. Elas preferem vender caro com a capacidade que já têm.
A memória do celular também vai subir?
Já está subindo. É a mesma DRAM, disputada pelos mesmos fornecedores. A volta das vendas de smartphone premium é uma das pressões citadas na crise, e fabricantes de aparelho já estão repassando isso no preço.
Comprar RAM chinesa da CXMT resolve?
Ajuda na margem, não no problema. A DDR5 chinesa já chegou a 8000 MT/s e marcas como a Corsair começaram a usar chips da CXMT em linhas de consumo, o que aumenta a oferta. Mas o volume ainda é pequeno perto do buraco deixado pela migração pra HBM.
Vale a pena esperar a próxima geração de memória?
Não. Padrão novo estreia sempre mais caro, e não existe geração seguinte prevista que resolva um problema de capacidade de fábrica. O gargalo é silício, não tecnologia.
Quem realmente paga a conta do boom de IA
Vou falar na lata o que essa crise significa.
Toda vez que alguém escreve que a inteligência artificial “não custa nada pro usuário comum”, esse número aqui é a resposta. Custa. Custa 448% no pente de memória do seu computador, custa 33% no notebook da faculdade, custa o retorno vergonhoso dos 8 GB de RAM em máquina nova.
A demanda por IA não é abstrata. Ela se materializa em wafer de silício que alguém deixou de transformar em memória de consumo pra transformar em HBM de data center. É uma transferência de recurso muito concreta, do bolso da pessoa física pro orçamento de infraestrutura das grandes empresas de tecnologia.
E o mais desconfortável: não tem vilão óbvio pra apontar. Ninguém combinou nada. Samsung, SK hynix e Micron estão fazendo o que qualquer empresa faria, indo atrás da margem maior. O mercado funcionou exatamente como devia funcionar. O resultado é que montar um PC decente virou privilégio.
Eu chuto que a gente vai ver, nos próximos meses, fabricantes de notebook cortando armazenamento também pra segurar preço de etiqueta, e configurações de entrada ficando cada vez mais fracas. Escuta o que eu tô falando: o notebook de R$ 3 mil de 2027 vai ser pior que o de 2024.
Você adiou alguma compra de PC ou upgrade por causa do preço da memória? Conta aí quanto pagou.
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Fontes
- Última Ficha: Memórias DDR5 sobem 7% em julho e atingem preço recorde
- 3DCenter: índice de preços de memória, julho de 2026
- Canaltech: crise da memória RAM e notebooks mais caros em 2026
- Notebookcheck: RAMageddon chega aos notebooks
- Canaltech: ADATA XPG sobre preços no Brasil
- Última Ficha: executivo da AMD diz que DDR5 fica cara até 2028
- Última Ficha: Corsair passa a usar chips da chinesa CXMT
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