Depois de oito semanas de sangria, os fundos voltaram a captar. Só que o tamanho da volta não combina com o tamanho da queda.
O bitcoin abriu esta quarta-feira, 22 de julho, a US$ 66.508, cerca de 2% acima da abertura de terça, e perdeu força ao longo da manhã, voltando para a faixa dos US$ 65.500. Com o dólar em torno de R$ 5,08, isso coloca a moeda perto de R$ 333 mil.
O contexto por trás desse número é o que interessa. Os ETFs de bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram a segunda semana seguida de entrada líquida, depois de dois meses ininterruptos de saque. A pergunta que está em todo grupo de investidor é a mesma: o fundo passou?
US$ 75,7 milhões em uma semana não desfazem US$ 8 bilhões em oito
Vamos aos números, porque eles resolvem boa parte da discussão sozinhos.
Na semana de 13 a 17 de julho, os ETFs à vista captaram cerca de US$ 75,7 milhões, segundo dados da Farside Investors. Na semana anterior tinham captado US$ 197,4 milhões. Somando as duas, dá algo perto de US$ 273 milhões de entrada líquida.
Agora a outra ponta: antes dessas duas semanas, foram oito semanas seguidas de saída, com mais de US$ 8 bilhões drenados dos produtos.
A conta é cruel. US$ 273 milhões representam pouco mais de 3% do que saiu. É como sangrar oito litros e repor um copo d’água. Melhor que nada, e muito longe de reposição.
A sexta-feira que salvou a semana veio quase toda da BlackRock
Dentro dessa semana morna, teve um dia forte. Na sexta-feira, 17, os fundos captaram US$ 132,3 milhões líquidos. Ou seja: quase toda a captação da semana aconteceu em um único pregão.
E olha a concentração. O IBIT, da BlackRock, sozinho puxou US$ 136,5 milhões naquele dia. O FBTC, da Fidelity, teve saída de US$ 4,2 milhões. Sem a BlackRock, a sexta-feira teria sido negativa.
Isso importa porque muda a leitura. Não é “o investidor institucional voltou”. É “um investidor grande, provavelmente poucos, alocou por um produto específico”. Fluxo concentrado em um emissor é sinal mais frágil do que fluxo espalhado por todos.
Quase metade do topo evaporou, e o calendário do halving explica parte
O topo histórico do bitcoin foi de US$ 126.198, em outubro de 2025. Do topo até agora, a queda passa de 47%. Em maio deste ano chegou a furar os US$ 74 mil, arrastado por tensão geopolítica no Oriente Médio e por aversão a risco generalizada.
Quem acompanha o ativo há mais tempo reconhece o desenho. Historicamente o bitcoin faz topo entre 16 e 18 meses depois do halving, e depois entra em um período de baixa que costuma durar cerca de um ano. O halving foi em abril de 2024. O topo veio em outubro de 2025, mais ou menos 18 meses depois. O roteiro está se repetindo com uma pontualidade quase chata.
Isso não é lei da física, é padrão observado em três ciclos, o que estatisticamente é pouquíssima amostra. Mas ignorar o padrão porque a amostra é pequena também não é lá muito esperto.
Os analistas divergem feio, e a divergência é a informação
As projeções para o resto de 2026 estão espalhadas de um jeito raro.
De um lado, o time da queda profunda vê o bitcoin caindo mais 40% a 50% a partir daqui, o que levaria a moeda para a faixa dos US$ 33 mil a US$ 39 mil. Uma casa de investimento chegou a projetar mais 30% de queda em março, com o argumento do ciclo de quatro anos ganhando força.
Do outro, o time da correção rasa acha que o pior já passou ou que o piso fica entre US$ 55 mil e US$ 60 mil.
Quando previsões sérias variam de US$ 33 mil a US$ 60 mil para o mesmo ativo no mesmo semestre, a leitura honesta é: ninguém sabe. E quem te disser que sabe está vendendo alguma coisa.
No Brasil, a isenção de R$ 35 mil sobreviveu, e nem todo mundo percebeu
Aqui tem uma confusão que ainda circula e vale desfazer, porque ela muda a conta de quem está pensando em realizar prejuízo ou lucro agora.
A MP 1.303/2025 propunha acabar com a isenção mensal de R$ 35 mil em vendas de cripto e substituir a tabela progressiva por uma alíquota única de 17,5%. Muita matéria publicada em 2025 tratou isso como certo para 2026. Só que a medida provisória perdeu a validade em outubro de 2025 sem ser convertida em lei.
Resultado: para ativos custodiados em exchange com sede no Brasil, a isenção de R$ 35 mil por mês em vendas continua valendo em 2026, e as alíquotas progressivas de ganho de capital seguem em vigor. Quem vende menos de R$ 35 mil no mês em corretora nacional e teve lucro não paga imposto sobre esse ganho.
Atenção ao detalhe que pega muita gente: essa isenção mensal não vale da mesma forma para ativo mantido em corretora estrangeira, que segue regra própria. Se o seu bitcoin está em exchange de fora, não presuma nada. E, com o DeCripto, a Receita passou a receber muito mais informação sobre essas operações do que recebia antes. O tempo do “ela nunca vai saber” acabou.
As fontes divergem sobre alguns pontos dessa transição, e sinceramente é um assunto para o seu contador, não para um post de portal. Eu não sou contador nem consultor de investimento. O que dá para dizer com segurança é que a regra mudou menos do que a manchete de 2025 prometeu.
Como não fazer besteira nesta faixa de preço
- Não faça média para baixo com dinheiro que você precisa em 2026. Um ativo que já caiu 47% pode cair mais 40%, e isso não é pessimismo, é aritmética de quem já viu acontecer.
- Se for realizar prejuízo, faça a conta de imposto antes. Vender no fim do mês ou no começo do seguinte muda a apuração, e no Brasil isso pode valer alguns milhares de reais.
- Confira onde seus ativos estão custodiados. Exchange nacional e exchange estrangeira têm tratamento tributário diferente, e a maioria das pessoas não sabe em qual das duas está.
- Trate fluxo de ETF como termômetro, não como bússola. Ele mostra o que já aconteceu na semana passada. Preço se move por juro, liquidez, dólar e humor, tudo junto.
- Ignore projeção de preço com número redondo. Quem crava US$ 20 mil ou US$ 200 mil está fazendo marketing, não análise.
As dúvidas que aparecem toda vez que o bitcoin cai pela metade
Duas semanas de entrada nos ETFs já significam que o fundo passou?
Não. Duas semanas somando US$ 273 milhões contra oito semanas tirando mais de US$ 8 bilhões é alívio, não reversão. E a captação está concentrada em um único produto, o que enfraquece ainda mais o sinal. Precisaria de várias semanas seguidas, espalhadas entre emissores.
Por que o bitcoin cai junto com a bolsa se ele deveria ser reserva de valor?
Porque na prática o mercado trata bitcoin como ativo de risco, não como ouro digital. Quando juro alto e tensão geopolítica empurram investidor para segurança, cripto sai junto com ação de tecnologia. A tese da reserva de valor pode até estar certa no prazo longo, só que não é assim que o preço se comporta no dia a dia.
Se eu tive prejuízo, posso abater alguma coisa no imposto?
As regras de compensação de perdas em cripto no Brasil mudaram e continuam confusas depois da queda da MP 1.303. Vale checar com contador que trabalhe com criptoativo, porque a resposta depende de onde o ativo está custodiado e de como você apurou nos meses anteriores.
O ciclo de quatro anos ainda funciona depois dos ETFs?
Essa é a discussão mais interessante do momento. Os ETFs trouxeram um comprador novo e mais lento, o que em tese suavizaria o ciclo. Mas o topo de outubro de 2025 caiu quase em cima do que o padrão previa. Por enquanto, o placar está a favor do ciclo.
O que esses nove meses de queda me ensinaram
Vou ser direto: eu não faço a menor ideia de onde é o fundo, e desconfio de quem faz.
O que essa queda deixou claro para mim é outra coisa. Em 2024 e 2025 o discurso era que a chegada dos ETFs e do dinheiro institucional tinha domesticado o bitcoin, transformado ele em ativo de portfólio adulto, menos volátil, menos maluco. Nove meses depois, o ativo adulto caiu 47% e o dinheiro institucional foi o primeiro a sair correndo, drenando US$ 8 bilhões em oito semanas.
Institucional não é mão firme. Institucional é mandato, e mandato tem regra de risco que dispara sozinha quando a volatilidade sobe. O ETF não trouxe estabilidade, trouxe uma torneira maior, que abre e fecha mais rápido nos dois sentidos.
Se você entrou em cripto acreditando que agora era diferente, essa é a lição que vale os nove meses. E se você entrou entendendo que ia doer, então nada disso deveria estar te surpreendendo. A parte que ninguém gosta de ouvir: essa dor faz parte do preço de entrada. Sempre fez.
Nada aqui é recomendação de compra ou venda. Eu não sou consultor de investimento, e você é quem decide o que fazer com seu dinheiro.
Você está comprando nessa faixa, esperando cair mais ou já saiu de vez?
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Fontes
- Farside Investors: fluxo diário dos ETFs de bitcoin
- NewsBTC: segunda semana de entrada, recuperação ainda frágil
- Bloomberg: ETFs quebram sequência de dois meses de saída
- CoinDesk: o ciclo de quatro anos e a projeção de mais 30% de queda
- Exame: com a queda da MP 1.303, tributação de cripto não sobe em 2026
ESCRITO PELA IA. REVISADO POR HUMANOS.







